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Ucrânia transforma combate em "Call of Duty" com sistema de pontos

O exército ucraniano criou um marketplace onde unidades trocam baixas confirmadas por drones e equipamento. Cada soldado russo abatido vale 12 pontos, e há até ranking público das brigadas.

Joana PiresJoana PiresVizinha do Pokémon GO··2 min
Ucrânia transforma combate em "Call of Duty" com sistema de pontos
Ucrânia transforma combate em "Call of Duty" com sistema de pontos

A guerra na Ucrânia entrou numa fase em que a fronteira entre videojogo e campo de batalha está cada vez mais fina. O sistema ePoints, lançado em 2024 e actualizado este ano, permite às unidades de combate ucranianas acumular pontos por baixas e equipamento russo destruído, e depois gastá-los num marketplace de drones e sistemas de guerra electrónica. Há ranking público, há leaderboard, há meritocracia. Só falta o killcam.

Como funciona a tabela de pontos

Cada unidade submete provas das suas missões para verificação (normalmente vídeo dos próprios drones) e a acção é convertida em pontos. A tabela divulgada pelo comando ucraniano é directa:

AcçãoPontos
Soldado russo morto12
Soldado russo ferido8
Destruição de hardware militarvariável
Sistemas de guerra electrónica destruídosvariável
Posições inimigas neutralizadasvariável

Os pontos vão para a conta da unidade e gastam-se no Brave1, um marketplace online onde as brigadas escolhem o que precisam: veículos terrestres não tripulados, drones de asa fixa, FPVs kamikaze e sistemas de guerra electrónica. Um dos itens disponíveis é o drone Nemesis, já usado contra artilharia, abrigos e alvos navais russos no Mar Negro.

Ranking público e decisão no terreno

O tenente-coronel Denys Poliachenko, da Direcção de Sistemas Não Tripulados do 7.º Corpo ucraniano, descreveu o modelo como uma ligação directa entre esforço de combate e acesso a meios. Por outras palavras, quem produz no terreno recebe melhor equipamento para continuar a produzir. Todas as unidades de primeira linha aparecem num ranking público, à boa maneira de um lobby de Call of Duty.

O outro detalhe interessante é a descentralização. Em vez de ser o alto comando a decidir o que comprar para cada brigada, são os comandantes no terreno que escolhem no marketplace. Para as empresas de defesa ucranianas, isto funciona como ciclo de feedback quase impossível de obter no sector: sabem em tempo quase real que produtos estão a funcionar e quais ninguém quer.

O lado desconfortável da gamificação

A comparação com Call of Duty é inevitável, e o próprio comando ucraniano não a evita. Mas convém lembrar que estamos a falar de pontos por matar pessoas, não por headshots num servidor de Verdansk. A gamificação da guerra não é exactamente uma novidade conceptual (medalhas, condecorações e ases da aviação existem há mais de um século), só que aqui o sistema é literal: leaderboard, loja, inventário, KPIs.

Seja qual for a leitura ética, o ePoints é um sinal claro de para onde vai a guerra moderna, com drones baratos, software a decidir logística e brigadas a operar com a lógica de uma esquadra de raid. A indústria dos videojogos passou décadas a copiar a estética militar; agora é o exército ucraniano que copia o loop de progressão dos jogos que toda a gente jogou.

Joana Pires

Vizinho do bairro

Joana Pires

Faz raids em Belém, Cascais e no Parque das Nações. Escreve guias de ataques, eventos e curiosidades, e sabe onde estão os melhores ginásios da Grande Lisboa.

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